13 março 2015

Crônica: Olhos Amarelos



A imagem original era essa, e eu encontrei no We Heart It. Eu só editei pra ficar mais parecida com a crônica, mas só a edição me pertence, viu? Créditos ao artista.


            Era uma cidade velha. Quero dizer, não que estivesse caindo aos pedaços, já que as construções podiam ser inclusive rotuladas de modernas. O que acontecia era que tudo ali era cinzento demais, triste demais, solitário demais. Havia muitos adultos que pareciam velhos e muitos jovens que se pareciam com os adultos que pareciam velhos.
            As pessoas viviam sufocadas pelo cotidiano, tão sufocadas que jamais refletiam sobre o mundo ao seu redor. Era tudo normal demais, não havia outro meio de pensar. Jamais se perguntavam por que existiam, o que estavam fazendo de importante ou qual era a razão por trás daquela vida que levava tão a sério a rotina de estudar, trabalhar e sobreviver durante toda a existência.
            Na ponta da cidade, quase caindo pela borda, ficava um prédio alto e esquecido, feito de pedras cinzentas e quadradas, sobrepostas como tijolos. As janelas eram sempre escuras, não importando o momento do dia, e ele era provavelmente uma das únicas construções realmente velhas naquela metrópole moderna e entediante. Da lateral esquerda, saía uma escada suspensa de qualidade duvidosa, que fazia um tortuoso caminho pelo ar até chegar num terreno baldio abaixo.
            Sentado num degrau, estava um gato magro de pelos negros e sedosos. Seus olhos amarelo-esverdeados observavam com ares de superioridade os seres humanos abaixo. Os bigodes agitavam-se no ar, vítimas do vento, mas a criatura não se mexia, como se o mundo inteiro fosse sua presa e ele estivesse prestes a dar o bote.
            No que o gato pensava?
            Enquanto as orelhas se mexiam levemente, capturando no ar todos os ruídos da cidade, talvez estivesse divagando sobre toda a mediocridade humana. Talvez estivesse repassando em sua mente todos os segredos ocultos do universo, que criaturas normais desconheciam. Ou talvez não estivesse pensando em nada – apenas existindo vagarosamente, como todo o resto.
            Lentamente, o sol se punha, e todas as vítimas do sistema deixavam seus trabalhos e escolas e retornavam para suas respectivas casas. Reclamavam da política, do futebol e conversavam sobre qual seria o almoço do dia seguinte. Não estavam interessados em viver uma vida interessante, ou em questionar o mundo ao seu redor, como o misterioso gato talvez estivesse fazendo.
            Despertos pela escuridão, os olhos do animal brilharam, e ele lentamente desceu as escadas. Em suas camas, ressonavam tranquilamente as vítimas do sistema, e as ruas da cidade lentamente ganhavam vida. Animais caçavam seu alimento, gangues saíam às ruas para planejar emboscadas, adolescentes fugiam de casa, estrelas surgiam no céu para piscar ensandecidamente, baladas colocavam a música no último volume, amantes encontravam-se em segredo, críticas eram pichadas em muros, letreiros coloridos e luminosos eram acesos, lojas suspeitas eram abertas em becos escuros, copos de bebida eram esvaziados com um só gole, uma lua minguante sorria macabramente no céu.
            A metrópole repentinamente ganhava vida, deixando de ser cinzenta e monótona. Aqueles controlados pelo sistema dormiam, enquanto o resto do mundo acordava para viver.
            O gato esgueirava-se em meio à loucura que a madrugada proporcionava.
            Seus olhos amarelos mesclavam-se ao caos vibrante ao seu redor.

3 comentários:

  1. Olá Ágata. Adorei seu blog e a crônica mostra claramente como as pessoas são no mundo de hoje. Se elas parecem para olhar ao redor com certeza perceberiam como o nosso planeta é lindo e divertido, até.
    Você escreve muito bem, continue assim!
    Bjs. http://auwss.blogspot.com.br/

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  2. ME ARREPIEI MENINEEEE
    Meu deus, que texto foda.
    Não sei o que dizer, só sentir.
    - um monte de estrelas

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  3. NOSSA!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! CARA, VOCÊ ESCREVE MUITO BEM. SÉRIO. MUITO BEM. PARABÉNS! ME EMPOLGUEI AQUI. AAAAAAAAAAAAAH.
    Tá, enfim.
    Nossa, o jeito que descreve os aspectos com facilidade, a essência da sua ortografia corretinha e nos eixos, ai. <3
    Mas isso não era pra ser um conto?
    Conheci o blog agora, mas amei de paixão. Que coisa mais linda e simples... <3

    Um abraço bem apertado! ✿ Readaptar

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