21 março 2017

Duas

A madrugada, escura e silenciosa, não está adormecida.
A madrugada é algo vivo, pulsante, misteriosamente gerada pela rotação da Terra em torno de seu próprio eixo.
O relógio marca uma da manhã. Em breve serão duas. O tempo circulará até o início, e raios preguiçosos de sol iluminarão um novo dia. Um dia que já foi vivido, em algum lugar no tempo.
Agora, apenas a madrugada importa. Ela sussurra, curiosa, e abandono o sono que pesa minhas pálpebras. Cada fibra do meu ser trabalha em conjunto para obedecer ao impulso súbito de escrever.
Madrugadas são truques de luz, as primeiras horas de um dia que todos estão cansados demais para apreciar. Madrugadas são famintas por sonhos e sedentas por aventura. Ela traz consigo fenômenos paranormais, suicídios inexplicáveis e amores proibidos. E, se você dormir, não poderá escutar seus sussurros.
Eu não durmo. O relógio marca uma da manhã, e em breve serão duas. Talvez eu adormeça encarando a tela semi-preenchida, idealizando um futuro incompleto. Talvez eu cochile apenas o suficiente para acordar ao nascer do sol. Talvez eu jamais durma.
Soa pretensioso e maravilhoso e, contra todas as probabilidades, eu quero testar. A adrenalina da possibilidade preenche e corrói — todas as coisas que podem ser feitas enquanto o ocidente dorme, todas as coisas que não podem ser feitas em qualquer outro horário. Loucuras e sutilezas, livros e chá e corridas e estrelas e vento e pessoas e estradas e o peso confortável de uma mochila nas costas.
Palavras também servem.
Palavras não são nada até que você dê sentido a elas. Sussurre em seus ouvidos e elas o serão. Palavras são taças esperando para serem preenchidas com vinho.
Eu as preencho. Dou sentido a elas. Como um artesão hábil entalhando um violino, reviro minha mente para produzir o efeito desejado. Eu sussurro, as palavras sussurram, a madrugada sussurra. Vibramos, pulsamos, existimos.
O relógio marca uma da manhã, e muito em breve serão duas. Trabalho com a força de um coração inquieto, que não pode dormir. Escrevo, sussurro, escrevo e escrevo, sussurros na mente, a madrugada dando sentido aos meus pensamentos, meus pensamentos dando sentido às palavras. E, talvez, as palavras possam dar sentido a algo mais.

3 comentários:

  1. Texto lindo e muitíssimo bem escrito! Além de tudo, sincero: quantas ideias, quantos mistérios, quanta inspiração as madrugadas encerram em si...! Palavras infinitas; palavras-estrelas.

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  2. Lembrou me Fernando Pessoa (Alguma influência?). Show!

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  3. Quem sabe a noite não foi feita para dormir?

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